migracao

04 de maio de 2006
ImageFamílias abandonam cidades no interior mineiro atraídas pelo trabalho temporário nas lavouras em São Paulo. Canavial é a única alternativa de emprego para os mais pobres. Empresas de turismo especializadas e profissionais que arregimentam trabalhadores fazem parte do esquema utilizado no envio de famílias do interior de Minas Gerais para o corte de cana nas lavouras de São Paulo

Bernardino Furtado
Estado de Minas (4/5/2006)
Fotos: Marcos Michelin/EM

Saída inevitável: trabalhadores de Minas Novas, no interior de Minas Gerais, deixam sua cidade em busca de emprego no campo. Jovens são os que mais procuram esse tipo de serviço

Com pouco mais de 10 mil habitantes, sendo quase 8 mil na zona rural, o município de Francisco Badaró, no Vale do Jequitinhonha (MG), perde todo ano um quarto da população por causa da migração temporária para o corte de cana no interior paulista. Os dados são da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O prefeito da cidade, José João de Figueiró Oliveira (PDT), organizou um seminário em fevereiro deste ano com os trabalhadores, a Igreja Católica e o Ministério do Trabalho para traçar um plano de acompanhamento do problema. “A migração temporária é um mal necessário. Não há emprego suficiente nos municípios do Vale do Jequtinhonha para nossos cidadãos sustentarem as famílias”, afirma.

Figueiró alerta, no entanto, que além de políticas públicas de apoio ao pequeno agricultor e ao artesanato local, é preciso que os migrantes tenham um melhor tratamento, especialmente nos canaviais de São Paulo. Ele diz que, “de pires na mão”, as prefeituras precisam de apoio dos governos federal e estadual para resolver o problema. Segundo o prefeito, a migração traz dinheiro para as cidade, mas também problemas. “Aumentam as drogas no retorno de jovens migrantes”, afirma.

Na comunidade de Areião, na zona rural de Minas Novas (MG), é tempo de saudade. A fruta amarga amadureceu no início da terceira semana de abril. Do grupo de aproximadamente 20 casas, separadas umas das outras pelas roças de mandioca e por pequenas pastagens, oito homens partiram no dia 17 para o corte de cana no interior de São Paulo. Mais 10 agricultores deixariam suas famílias na semana seguinte para uma ausência de quase oito meses. A 15km do centro de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, os moradores do Areião consideram a migração temporária para os canaviais uma saída inevitável. Sobretudo para os jovens.

Falta de opção
Em abril deste ano, a dona-de-casa Maria Lopes da Costa Santos já havia perdido a companhia de um filho e ensaiava a despedida do segundo. Não tem remédio. A família de sete pessoas sobrevive de um único salário mínimo, ganho pelo marido de Maria, João Ferreira dos Santos, jardineiro da prefeitura de Minas Novas. Os filhos adultos já são vistos como homens criados, prontos para seguir o próprio caminho. Até porque a terra da família é pouca e de má qualidade. A migração temporária para o corte de cana já integra o cotidiano da região. Mas, apesar da busca por uma renda extra, o salário dos filhos que vão para o canavial não entra no orçamento familiar. “É pouco para dividir com a gente”, justifica a mãe.

A emancipação pelo trabalho fora de casa encerra uma contradição. A migração provoca carência de braços para expandir e diversificar as lavouras domésticas. “Aqui na roça só temos a farinha para engrossar a comida e a goma de mandioca para os biscoitos. O resto a gente tem de comprar”, explica a mulher. Por que não plantar feijão, milho, legumes? “Meu marido trabalha na cidade, os rapazes vão para o corte de cana. Sobram eu e as crianças sem força para tocar a roça”, justifica Maria.

Odila Ferreira Costa, de 52 anos de idade, solteira e mãe adotiva de dois sobrinhos cortadores de cana, diz que ficar no Areião é a pior alternativa para os jovens. Significa, por exemplo, trabalhar nas carvoarias, que crescem no território de Minas Novas, dominado pelas florestas de eucalipto. “É serviço muito pesado. Eles cospem e escarram carvão. A roupa jamais fica livre do pó preto. Isso, em troca de salário mínimo. Na cana também é sofrido, mas ganham mais”, compara Odila.

Na sala da casa simples sem reboco e chão de cimento, estão à vista os sonhos parcialmente realizados de Reinaldo, de 22 anos, um dos sobrinhos de Odila. Aparelho de som, televisão e uma moto recém-comprada. “Ele comprou com o dinheiro que juntou no ano passado. Mas vai ter que pagar o resto das prestações da moto com a safra de cana deste ano”, conta Odila. Ela também depende da cana. “Vivo adoentada e não posso trabalhar na roça”, diz. Por isso, Reinaldo e Joaquim, o outro sobrinho, mandam, durante a safra, entre R$ 150 e R$ 200 por mês para o sustento de Odila.
Relatos de retirantes

Sonho da casa própria

Marluce Gonçalves, 23 anos

Ela quase não fala. Traz no rosto assustado a expressão da vida difícil na zona rural de Araçuaí, interior de Minas Gerais. Perdeu o primeiro filho, Júnior, antes dos seis meses de idade. O segundo, Fábio, chegou há dois anos. João Paulo, o marido, de 25 anos, demorou a se render à sedução dos canaviais de São Paulo. Mas a necessidade falou mais alto este ano. A casa onde moram, na comunidade José Gonçalves, é emprestada por uma tia. Marluce e João Paulo terão que encontrar uma nova morada até julho. O rapaz, que sempre preferiu campear gado alheio para poder morar perto dos pais, seguiu o irmão Welington, de 28 anos, já experiente na migração para o corte de cana. Marluce reza para que o marido consiga juntar dinheiro suficiente para construir a casa própria nos próximos meses.

Batalha de 30 anos

Maria de Lourdes da Silva, 55 anos

Enquanto descasca uma abóbora no quintal da casa do bairro Mutirão, na periferia de Araçuaí (MG), Maria de Lourdes não poupa elogios ao marido. “Aquele ali trabalha! E é alegre, bom pai, não fuma nem bebe e manda dinheiro todo mês. Quando está aqui, você precisa ver. Se diverte todo dia no jogo de truco com os vizinhos, todos gostam dele.” A admiração pelo marido é compreensível. Aos 69 anos de idade, Pedro Antônio Dias Pereira havia saído dois dias antes para o corte de cana. Tem feito isso, safra após safra, nos últimos 30 anos, segundo a mulher que lhe deu nove filhos. “Ele já ligou de São Paulo e disse que está tudo bem”, derrete-se Lurdinha. “É difícil ficar longe dele, mas foi graças a isso que criamos os filhos, fizemos a casa e temos as nossas coisinhas”, diz.

À espera do marido

Ana Paula Alves, 20 anos

O filho, Kevin, de 2 anos, tem saúde precária. Teve convulsões nos primeiros meses de vida e precisa tomar remédios de uso continuo para combater as seqüelas neurológicas. “É difícil ficar sozinha, com filho pequeno e doente, mas o Carlos André, meu marido, tinha de ir”, conta Ana Paula, de aliança no dedo. Segundo ela, o rapaz, de 23 anos, trabalha na cana desde o início do casamento, em 1999. No ano passado, conseguiram construir a casinha própria, de três cômodos, que ainda não tem um banheiro. Fica no bairro Mutirão, na periferia de Araçuaí. “Construímos à base de muita ajuda dos parentes e amigos e, ainda assim, o Carlos André saiu para a safra deste ano devendo R$ 2 mil”, afirma. É com o dinheiro do canavial que o casal espera pagar a dívida, melhorar a casa e garantir comida para o resto do ano.
Os “vendedores” de esperança
Empresas de turismo especializadas e profissionais que arregimentam trabalhadores fazem parte do esquema utilizado no envio de famílias do interior de Minas Gerais para o corte de cana nas lavouras de São Paulo
Bernardino Furtado
Estado de Minas (5/5/2006)
Marcos Michelin/Estado de Minas

Usinas contratam agricultores cadastrados por empresas, como em Chapadão Turmalina (MG), para a lavoura

A contratação de cerca de 40 mil trabalhadores mineiros por ano para o corte de cana no interior de São Paulo é uma máquina azeitada, que funciona graças a um esquema capilar de agenciadores, que atuam nas comunidades rurais e bairros populares do interior de Minas Gerais. Esses profissionais são uma versão reciclada dos antigos ‘gatos’, aliciadores de mão-de-obra para o trabalho escravo, comuns no Norte brasileiro, especialmente.

O maior grupo usineiro do país, o Cosan, dono de 17 usinas e empregador de 17 mil lavradores, gaba-se de contratar diretamente os trabalhadores migrantes. Na verdade, vale-se do sistema herdado dos antigos donos das usinas que adquiriu nos últimos anos. Quando anunciou, no fim de março, a abertura das contratações para a safra 2006/2007, o grupo Cosan já havia posto em marcha, um mês antes, seu pequeno exército de agenciadores no Vale do Jequitinhonha (MG).

No centro de Minas Novas (MG), a 520km de Belo Horizonte, o movimento final dessas engrenagens antigas se revela. Vindos da zona rural do município e de cidades vizinhas em ônibus de carreira ou em carrocerias de caminhões, cerca de 300 trabalhadores aguardaram três horas com suas bagagens empilhadas nas calçadas. Cada ônibus fretado que levaria os migrantes aos canaviais do grupo Cosan, em São Paulo, tinha um ‘chefete’, também trabalhador migrante. Ele conhecia todos os chefiados pelo nome e sobrenome. Na sede da empresa Strada Turismo, os trabalhadores formaram filas para receber as carteiras de trabalho e as folhas de contrato. Depois da longa espera, os migrantes passam por um exame médico.

Para encarar a viagem, os trabalhadores saem de casa às 5h. Acostumados a almoçar cedo, entre 9h30 e 10h30, só vão comer depois de tirar a pressão e mergulhar numa cabine improvisada com plástico preto, do tipo usado nas barracas de trabalhadores sem-terra, para o exame médico. Muitos cumprem essa última etapa às 15h.

A intermediação de mão-de-obra mantém uma relação de dependência entre o trabalhador e o “fiscal”, nome dado pelos usineiros aos agenciadores de pessoas carentes para o corte de cana. Uma desavença pessoal ou de trabalho com o intermediário pode resultar na exclusão da lista. O restante da triagem fica por conta da equipe de recursos humanos do grupo, em São Paulo.

Os “fiscais” substituem os antigos “gatos”, que tiravam renda dos trabalhadores em comissões para o pagamento de transporte e alimentação. No caso da Cosan, a viagem para São Paulo e a volta para o Vale do Jequitinhonha é feita em ônibus fretados diretamente pela empresa e não há desconto destes custos no salário. Nenhum diretor da Cosan quis falar com a reportagem. Divulgou apenas que contratou cerca de 7.400 trabalhadores vindos do Vale do Jequitinhonha e outros 1.700 de outros estados. A mão-de-obra migrante representa mais da metade da força de trabalho rural do grupo na safra 2006/2007.
Quem ganha com o serviço
Nascido em Leme do Prado, pobre e pequeno município do Vale do Jequitinhonha (MG), Durval José da Trindade representa o verso da medalha na trajetória de sofrimento e pouco dinheiro que acompanha os migrantes que buscam sustento nos canaviais do interior de São Paulo.

Ele gaba-se de ter “inventado”, há mais de 20 anos, a migração em massa de moradores para o trabalho temporário. Sua empresa, a Strada Turismo, é registrada na Embratur e tem como negócio-chave o transporte e a arregimentação de cortadores de cana. Durval orgulha-se de prestar serviço para o Cosan, o maior grupo sucro-alcooleiro do Brasil.

Quando faz o transporte em seus próprios veículos, a Strada cobra R$ 100, 20% menos do que as passagens dos ônibus de carreira.
Trabalhadores confinados
Usinas paulistas abrigam cortadores de cana vindos de Minas Gerais em alojamentos pagos, pouco confortáveis e distantes das cidades
Bernardino Furtado
Estado de Minas (6/5/2006)
Marcos Michelin/Estado de Minas

Em Pitangueiras, no interior de São Paulo, os trabalhadores são alojados em pequenos quartos distantes até 20km das lavouras de cana

Apresentados pelas grandes usinas de açúcar e de álcool como prova de zelo com os cortadores de cana migrantes, os alojamentos de trabalhadores não são propriamente um exemplo de conforto. A falta de privacidade, a disciplina, o aperto das instalações, o isolamento e o cardápio pobre do almoço e do jantar explicam porque muitos migrantes preferem os cômodos alugados na periferia das cidades. Até porque o alojamento não é gratuito. A lei trabalhista autoriza as empresas a descontarem despesas com moradia e alimentação do salário dos empregados.

Trabalhadores contratados pelo maior grupo usineiro do país, a Cosan, dizem que, em 2005, esse desconto ficou próximo de R$ 120 por mês. Durval José da Trindade, um agenciador de migrantes para a Cosan em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, diz que, este ano, o preço será de R$ 80. Em abril, a reportagem fez uma visita guiada, pedida com 10 dias de antecedência, a um alojamento do grupo Cosan.

O pedido era para visitar um alojamento da usina Ipaussu, na cidade do mesmo nome, na divisa entre São Paulo e o Paraná. Na antevéspera, contudo, a assessoria de imprensa do grupo disse que a visita possível era ao alojamento da usina da Barra. A unidade fica na área rural do município vizinho de Dois Córregos. No dia combinado, as instalações e as áreas comuns estavam bem arrumadas.

As construções tinham pintura nova. Quartos, banheiros, refeitório, tudo muito limpo. Mas a visita não deixou de revelar os problemas desses grandes alojamentos. Um dos funcionários que acompanhou a visita apressou-se em informar que o número de trabalhadores por metro quadrado nos quartos estava de acordo com a legislação. São 14 lavradores em sete beliches. O espaço entre as camas é suficiente apenas para uma pessoa se esgueirar para fora do quarto.

Cada trabalhador tem um armário – o nome escaninho é mais apropriado – embutido na parede. Os banheiros ficam do lado de fora. A empresa fornece apenas o lençol, que empregados da limpeza trocam e lavam. Os migrantes têm de trazer de casa o resto da roupa de cama e de banho. São eles também que lavam as suas calças, camisas, meias e cuecas no conjunto de três tanques instalados do lado de fora dos quartos. O alojamento da usina da Barra abriga 488 trabalhadores rurais. Somados à equipe de cozinheiros e faxineiros, a população supera 500 pessoas. Ficam a 10km da cidadezinha mais próxima, Santa Maria da Serra. O acesso é feito por estrada de terra no meio dos canaviais.

O refeitório tem não mais que 80 assentos. Chamado de centro de convivência, o ambiente é, na verdade, o uma sala com cerca de 100 lugares, uma televisão e uma estante com revistas. Num cômodo minúsculo, funciona uma enfermaria para pequenos curativos. O ambulatório fica na usina, a 25km do alojamento, por estrada de terra. Na hora do almoço, havia cerca de 80 trabalhadores rurais que estavam de folga. A escala é uma folga para cada cinco dias trabalhados.

É comum deslocamentos para o trabalho de 20km ou mais a partir do alojamento. Por isso, o almoço dos cortadores de cana na ativa é feito no campo. No cardápio, arroz, feijão, carne picadinha ao molho, rodelas de pepino mergulhadas no vinagre, um ovo frito e uma banana para cada trabalhador. A comida é servida em bandejas por funcionários da cozinha, também recrutados no Vale do Jequitinhonha (MG). (BF)
Um bairro para os migrantes
As principais ruas de Pitangueiras, no interior de São Paulo, homenageiam os estados do Brasil. A rua Minas Gerais começa no centro, dominada por casas confortáveis. À medida que se afasta da praça principal de Pitangueiras, a avenida ganha outro aspecto. Casas simples, comércio miúdo de bares, lojinhas de roupas, açougues, padarias.

O nome oficial do bairro é Bela Vista, mas os moradores preferem chamá-lo de Gustão, em homenagem ao proprietário da fazenda que havia no local. Embora pobre, o Gustão tem ruas asfaltadas, limpas e com calçadas, ao contrário dos caóticos bairros populares das cidades do Vale do Jequitinhonha (MG).

Percorrido um quilômetro, o lado esquerdo da Minas Gerais se torna o limite de um grande canavial. No meio, fica a linha férrea, onde passam, esporadicamente, trens cargueiros. É a rua mais comprida da cidade. Comprida como é a estrada que leva os migrantes ao trabalho com carteira assinada no corte de cana.

É na extremidade da via Minas Gerais e nas ruas transversais que estão os barracos e cômodos alugados, a cada safra, pelos cortadores de cana recrutados para o trabalho temporário. No fim das madrugadas e ao entardecer, a Minas Gerais transforma-se numa grande rodoviária para os ônibus de bóias-frias.

No canavial que margeia a rua, um avião dá rasantes para despejar um produto químico que acelera o amadurecimento da cana. Mas o local de trabalho dos moradores temporários geralmente está a dezenas de quilômetros.

À noite, as dezenas de bares com mesas de sinuca recebem peões para uma dose de cachaça ou o “luxo” de uma cerveja mais barata. Mas a maior parte dos cortadores de cana se recolhe aos cômodos e barracos. Não querem e não podem gastar com bebida. Muitos são abstêmios. Têm por rotina o trabalho e a saudade da casa.
O homem vence a máquina
Usinas do interior de São Paulo preferem contratar trabalhadores temporários para o corte manual de cana-de-açúcar do que investir em equipamentos modernos para o serviço. A justificativa é reduzir custos
Bernardino Furtado
Do Estado de Minas (7/05/2006)
Marcos Michelin/EM/25.4.06

Cortadores de cana são preferidos pelo baixo valor dos salários e pelo alto rendimento. Apenas 20% das lavouras são cortadas por máquinas

Desde o início da década de 50, quando a usina Monte Alegre, de Piracicaba (SP), importou uma máquina da Louisiana (EUA), o corte mecânico de cana-de-açúcar no Brasil tornou-se uma eterna ameaça a milhares de pobres que sobrevivem no trabalho sazonal com seus facões de lâmina larga em São Paulo. À venda na concessionária John Deere de Piracicaba por R$ 700 mil, a colhedeira mais moderna promete cortar e picar, em pedaços de aproximadamente 30cm, cerca de 800 toneladas de cana por dia, consideradas as paradas para manutenção. Corrresponde ao trabalho de mais de 60 lavradores de alto rendimento. No entanto, não mais do que 20% da colheita de cana em São Paulo, responsável por 60% da produção nacional, é feita por máquinas. Razão principal: o trabalhador braçal é mais barato.

Montada sobre pneus ou esteira, a colhedeira mais moderna em uso possui discos de corte para as pontas das canas. Esses utensílios ficam na frente do disco inferior que corta a base das touceiras. Dois cilindros rosqueados puxam a cana para o interior da máquina, onde está a picadeira. As folhas secas (palha) são expulsas pela abertura traseira da máquina. Uma espécie de tubo chato projeta a cana picada para a gaiola de um caminhão que se movimenta paralelamente à colhedeira.

A Cosan, maior grupo usineiro do país, informa que usa o corte mecânico em 30% da sua área de canaviais. A maior intensidade de mecanização se dá nas lavouras associadas à usina Diamante, no município de Jaú (SP), onde 80% do corte é feito por máquinas. Uma visita às lavouras da Diamante mostra que a operação das colhedeiras é sujeita freqüentemente a indesejáveis interrupções. Uma máquina nova ficou paralisada durante horas devido a falhas no equipamento. No chão do canavial, podia-se ver que o corte defeituoso tinha deixado tocos grandes de cana. Resulta em perda da parte da planta com maior teor de sacarose e também em redução da brotação de novas touceiras.

Há cerca de sete anos a entrada em operação das primeiras máquinas cortadoras de cana em São Paulo foi interpretada por estudiosos do setor sucro-alcooleiro e pelos próprios trabalhadores como o começo do fim do corte manual. Segundo o professor Francisco Alves, do Departamento de Engenharia da Produção da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), trata-se de mais uma demonstração da natureza esquizofrênica da indústria de açúcar e do álcool. “Esse setor empresarial é moderníssimo, pela organização, pela agricutura de precisão, pelo processo industrial, mas na área de mão-de-obra é de um atraso assustador”, afirma Alves.

A razão primordial para a presença tímida das máquinas no corte de cana é o custo, diz o professor. Segundo ele, o piso salarial dos cortadores de cana era de 2,5 salários mínimos na década de 80, equivalentes, hoje, a R$ 875. Na safra deste ano, o piso é de R$ 420. Esse salário básico reflete também o quanto ganha o cortador de cana de baixa produtividade. Alves lembra que o rendimento do trabalho aumentou. Um homem de alto rendimento corta atualmente 12 toneladas de cana, quase o dobro do volume obtido na década de 80.

O processo de mecanização em São Paulo, responsável por 60% da produção nacional de álcool e açúcar, foi freado também por uma conquista dos usineiros na área política. A lei estadual previa o fim da queima de cana, por razões ambientais, neste ano. No entanto, uma nova lei que prevê uma suave redução das áreas de queima de cana até a extinção total em 2031.
Atletas dos canaviais
Em recente artigo, o professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Francisco Alves compara o esforço de um cortador de cana ao de um corredor fundista. Difícil não lembrar de Zeferina Baldaia, cortadora e filha de cortadores de cana migrantes de Minas Gerais que se tornou corredora profissional de sucesso. O professor lista os tipos e quantidades de esforços despendidos na jornada diária.

Um trabalhador que corte 6 toneladas de cana, num talhão de 200m de comprimento, por 8,5m de largura, caminha, durante o dia, uma distância de aproximadamente 4,4 mil metros, despende aproximadamente 50 golpes com o podão para cortar um feixe de cana, o que equivale a 183.150 golpes no dia (considerando uma cana em pé, não caída e não enrolada e que tenha uma densidade de 5 a 10 canas a cada 30cm).

Além de andar e golpear a cana, o trabalhador tem que, a cada 30 passos, abaixar-se e torcer-se para abraçar e golpear a cana bem rente ao solo e levantar-se para golpeá-la em cima. Além disto, ele ainda amontoa vários feixes de cana cortados em uma linha e os transporta até a linha central. Isto significa que ele não apenas anda 4,4 mil metros por dia, mas transporta, em seus braços, 6 toneladas de cana a uma distância que varia de 1,5 a 3m.

Desidratação
Não bastasse todo este dispêndio de energia andando, golpeando, contorcendo-se, flexionando-se e carregando peso, o trabalhador sob o sol usa uma vestimenta composta de botina com biqueira de aço, perneiras até o joelho, calças de brim, camisa de manga comprida com mangote, também de brim, luvas de raspa de couro, lenço no rosto e pescoço e chapéu, ou boné.

Essa perda de energia sob o sol, com esta vestimenta, faz os trabalhadores suarem abundantemente e, portanto, perderem água e sais minerais. As primeiras conseqüências são a desidratação e câimbras freqüentes. Elas começam, em geral, pelas mãos e pés, avançam pelas pernas e chegam no tórax, o que provoca fortes dores e convulsões e fazem pensar que o trabalhador esteja tendo um ataque nervoso. Para conter as câimbras e a desidratação, algumas usinas já levam para o campo e ministram aos trabalhadores soro fisiológico e, em alguns casos, suplementos energéticos, para reposição de sais minerais.