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A necessidade de comunicação interpessoal é inata. A linguagem é o principal meio de nos relacionarmos com outras pessoas. A necessidade de comunicação mais ampla surge sempre que precisamos alcançar uma audiência maior de pessoas do que nossa ação individual permite.

No universo midiático no qual vivemos, os meios de comunicação de massa desempenham esse papel. De maneira crescente, meios audiovisuais, principalmente a televisão, substituem virtualmente outras formas de contato interpessoal. Por sua rapidez e modernidade, vão adquirindo cada vez mais o poder de pensar e falar por nós.

Esse poder é enorme, mas não é absoluto, ou nos transformaríamos em autômatos. As mensagens que chegam até nós são filtradas por nossa cultura, religião, hábitos, costumes, educação, experiências, modos de pensar. Há ocasiões em que a participação virtual não basta. Nesse momento, percebemos que nos defrontamos com barreiras intransponíveis ao tentarmos fazer chegar nossas reivindicações, nossos pontos de vista e nossas demandas aos centros de irradiação da informação. Então nos damos conta de que, se quisermos fazer chegar a muitas pessoas as nossas reivindicações, teremos de tomar a frente na elaboração e na transmissão das mensagens que desejamos difundir.

Mão na massa

Pode-se dizer que mídias comunitárias são iniciativas que emanam, espontaneamente, da população. Ou surgem de parcerias entre a população e associações ou organizações da sociedade civil, em um trabalho ombro a ombro. O Cecip foi pioneiro em vídeo comunitário, na Baixada Fluminense, com seu projeto TV Maxambomba, “A TV do povo de Nova Iguaçu”, como dizia o arauto que anunciava as sessões nas praças públicas, ao cair da noite. A história da iniciativa foi contada em inúmeras teses de mestrado e doutorado, em artigos e livros, entre eles “Bem pra lá do fim do mundo”, que conta uma experiência em Rancho Fundo, Nova Iguaçu.

Tratava-se de um projeto de pesquisa-ação. Queríamos descobrir como as pessoas percebiam a situação ambiental em que viviam, como poderiam tomar consciência da origem dos problemas pelos quais passavam e, quando isso ocorria, o que decidiam fazer para mudar. O projeto surgiu de um pedido de uma moradora do bairro. Estávamos em vésperas da realização da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Eco 92, e ela sugeriu que fizéssemos algo para explicar o que vinha a ser meio ambiente.

Depois de discutirmos com movimentos sociais, iniciamos uma pesquisa, coordenada pelo Ippur, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. Entre os seus resultados estavam os principais problemas existentes no bairro, segundo a visão dos moradores. Entre eles, escolhemos a questão do lixo para desenvolvermos um trabalho, já que nos dava a possibilidade de estabelecer uma interação entre as ações individuais e coletivas de moradores e as ações de autoridades responsáveis pelo atendimento a essas reivindicações.

Foi uma experiência interessante, com a qual aprendemos muito. Pudemos ver, concretamente, a grande força que existe em um movimento popular quando as pessoas se unem com um objetivo preciso. Depois de acalorada reunião, convocada, em princípio, para filmarmos cenas da população reunida, houve uma retomada de participação de moradores e representantes de associações do bairro. Um abaixo-assinado pedindo providências às autoridades, que no passado havia sido praticamente deixado de lado, foi retomado. Rapidamente chegou ao meio milhar de assinaturas, um número expressivo para aquela comunidade.

Marcada a entrega do documento às autoridades, fomos solicitados a registrar o fato. No ato de entrega, a pessoa responsável pela coleta de lixo, percebendo a presença da “televisão”, aproveitou para fazer um discurso cheio de promessas, entre as quais a de que “nesta segunda-feira” o caminhão do lixo passaria por todas as ruas até então excluídas do serviço.

Na tal segunda-feira, o caminhão não passou. Mas havia um documento gravado. O movimento se fortaleceu e, no processo, o próprio prefeito não pode recusar a ir à praça pública. Diante do telão, das lideranças e da população que compareceu em peso à exibição noturna da TV Maxambomba, não teve outro jeito senão cumprir o prometido.

Tudo parecia ter sido resolvido em tempo recorde. Mas recebemos a notícia de que o contrato da prefeitura com a companhia que fazia a coleta de lixo não havia sido renovado e que montanhas de resíduos estavam novamente acumuladas nas ruas. Foi um aprendizado para todos: a população, que havia se desmobilizado diante do sucesso da iniciativa, teve de se reorganizar e voltar a batalhar por seus direitos.

O papel da TV Maxambomba era, no projeto original, o de, simplesmente, registrar o que fosse acontecendo naquele bairro. Entretanto, vimos o quanto uma “televisão popular” pôde influir no curso dos acontecimentos, pelo simples valor simbólico de sua presença. As promessas feitas pelas autoridades, registradas em vídeo e mostradas à população para serem debatidas desempenharam um papel que ultrapassou nossa intenção original.

Nossa ação não se limitou a gravar os acontecimentos em vídeo para depois mostrá-los à população. Tivemos presença permanente junto à associação de moradores, discreta, mas solidária. Em nenhum momento pretendemos mais do que estar ali, ouvindo, só nos manifestamos raramente, quando solicitados. Essa presença foi um fator decisivo para a confiança estabelecida entre o Cecip e as lideranças, pois deixou claro, desde o início, que todo o processo era conduzido pela associação local e não por qualquer agente externo.

O resultado foi a consciência, por parte dessas lideranças, da própria força e da necessária autonomia de decisões. Assim, a organização local se tornou mais forte e mais consciente de si mesma, o que permitiu que a experiência se enraizasse e pudesse continuar após o término de nosso projeto de pesquisa.

Diferentes frentes de ação
Mas as mídias comunitárias podem ser algo bem mais simples do que uma “televisão” e nem por isso menos eficazes. Seja usando o rádio, o jornal, o alto-falante ou qualquer outro meio de comunicação, é preciso haver disciplina, concisão, objetividade e esforço coletivo. Agindo dessa forma, mesmo que o grupo que produz a mídia seja pequeno em relação à população, será eficaz na exposição de seus anseios.

E é quando as pessoas percebem que são capazes de traduzir em palavra escrita, falada ou imagem a sua visão de mundo é que se estabelece um processo irreversível de transformação social. Porque se passa de leitor a escritor; de ouvinte a ator, de uma atitude passiva e conformada a outra, aberta para o futuro e capaz de transformações da realidade em que vivem.

Uma das frases famosas de Paulo Freire dizia que “ler é compreender o mundo e escrever é transformá-lo”. É preciso um preparo específico para “ler o mundo” por meio dos meios de comunicação.”Escrever o mundo” será um passo a mais, de apropriação das técnicas que permitam dominar a linguagem necessária para transmitir uma visão própria da realidade e das transformações que devem ocorrer para que haja mais justiça e eqüidade.

A incorporação de técnicas de fazer mídia deveria fazer parte do currículo escolar. Quando alguém, aluno ou professor, se apropria de uma nova linguagem, é capaz de contar o mundo de outro jeito. Transformação é isso. A experiência que desenvolvemos há quase oito anos no projeto Botando a Mão na Mídia demonstra que este processo é tão desafiador, é tão envolvente, que coloca em questão toda forma de organização da escola, o modo de ensinar, as estruturas rígidas em que o ensino em nosso país é baseado.

O projeto Botando a Mão na Mídia trabalha com alunos e professores, fazendo-os perder o medo da tecnologia aparentemente misteriosa que é o vídeo, e dando-lhes a oportunidade de se apropriarem de uma nova linguagem, através de experiências concretas de produção de pequenos documentários e peças de ficção. Experiências em mídia comunitárias começam assim, despretensiosas, mas possuem um enorme potencial, ainda mal aproveitado. Vale insistir.

*Diretor-executivo do Cecip